A saga Karate Kid

Será que filho de peixe peixinho é, como reza a tradição? Com frequência na vida artística, isso é cada vez mais comum. Como demonstram os filhos de atores clássicos, como Henry Fonda, Kirk Douglas, Debbie Reynolds, Charles Chaplin, Tony Curtis e outros que formaram verdadeiros clãs artísticos como os Redgrave e os Barrymore.
Pensando bem, um filho que faz sucesso é bom para todo mundo, principalmente para os pais que recebem uma renovada dose de popularidade e oportunidades, conquistando uma nova geração de admiradores. E pelo jeito eles começam cada vez mais cedo, como é o caso de Jaden Smith, o filho de apenas 12 anos, dos superstars Will Smith e sua mulher Jada Pinkett Smith (que atualmente estrela da série de TV Hawthorne).
Não só Jaden, mas os irmãos também se encaminham na carreira (Willow Smith, de 10 anos, começou em Eu sou a Lenda e não tem parado. Trey Smith, de 18 anos, é filho de outro casamento com Sheree Smith e depois de alguns papéis parece ter desistido da carreira).


Mas segundo os pais, é Jaden (nome completo Jaden Christopher Syre Smith) quem tem insistido em fazer filmes. Apareceu em séries de TV ( All of Us, de 2003 e Zack and Cody, de 2008) e se revelou como o próprio filho de Will Smith, no sucesso À Procura da Felicidade /The Pursuit of Happyness (06), um comovente drama sobre homem desempregado com filho pequeno, que é obrigado  a viver com o garoto nas ruas, sem teto, para manter um emprego.Foi tão convincente que pouca gente notou que era filho de um astro e menos ainda percebeu sua próxima aparição no cinema como um garoto enjoadinho no fracasso O Dia em que a Terra Parou, com Keanu Reeves (08).
O problema é que o garoto se viciou em cinema e não queria parar por aí. Participou de videoclipes com o pai rapper, com a cantora Alicia Keys e até chegou a entregar um prêmio Oscar. Foi assim que surgiu o projeto de refilmar Karate Kid, vindo do próprio Jerry Weintraub, que tinha feitos os quatro originais e depois a série Onze Homens e um Segredo. Havia um pequeno problema: aos 12 anos Jaden ainda era pequeno e franzino demais para um personagem tão físico. Mas preferiram ignorar os fatos em vez de simplesmente adiarem o filme por um par de anos.
Divulgação/Sony Pictures
Divulgação/Sony Pictures
O novo Karate Kid segue os passos da trilogia original (A Hora da Verdade, a partir de 1984, com o ator Ralph Macchio, que tinha 24 anos na época e como o professor Miagy, o ator de televisão Pat Morita). Só que agora a história se passa na China continental da atualidade. A mãe dele (Taraji P.Henson, indicada ao Oscar de coadjuvante por Benjamin Button) é transferida para Pequim e o filho Dre Parker tem que ir junto. O problema, além da língua, é que na escola ele é perseguido por um grupo de bullies, que começam a bater nele. A única saída é pedir ajuda para um zelador Mr. Han (um discreto Jackie Chan) para ajudá-lo a estudar kung-fu e enfrentar um professor mau caráter, que deformava as regras e princípios da luta marcial. Dali em diante, acontece o difícil treinamento e finalmente o torneio decisivo, onde Dre aprende a apanhar e vencer a dor.
O filme fez uma carreira boa de bilheteria nos EUA (mais de 170 milhões de renda) o que vai garantir sem dúvida uma continuação. E outra chance de Jaden crescer como o Karate Kid.
Vamos ver como o fenômeno Karate Kid surgiu e foi crescendo através do que escrevi dos anos desde o começo da série.
A Hora da Verdade
The Karate Kid, 1984. Direção de John Avildsen.
Divulgação/Columbia Pictures
Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Martin Kove, Elisabeth Shue, Randee Heller, Chad McQueen, Rob Thomas. 126 min. Columbia (Foi recentemente relançado em DVD).
Era um roteiro original de Robert Mark Kamen (que hoje é dono da vinícula Kamen, no vale de Sonoma) que o produtor e agente e empreendedor Jerry Weintraub  (da série Doze Homens e um Segredo) transformou em uma série de sucesso. Kamen tinha começado como escritor do importante Taps/Toque de Recolher, com Tom Cruise, de 81. Depois fez Split Image (Seita de Fanáticos, de Ted Kotcheff, de 82). Após a série teve uma boa carreira escrevendo entre outros,  o drama de boxe Gladiador (não o de Crowe), outro filme com Avildsen, The Power of One , de 92 , Máquina Mortífera 3, naturalmente o Karate Kid 4, Um Passeio nas Nuvens/A Walk in the Clouds, de 95, o Quinto Elemento, de 97, e fitas de ação como O  Beijo do Dragão, a série Carga Explosiva/Transporter, Bandidas e Busca Implacável/Taken, com Liam Neeson. Para a direção chamaram Avildsen, que tinha ganho o Oscar por Rocky, o Lutador e estava com muito prestígio. Por sua vez ele recorreu á mesma equipe de Rocky, inclusive o compositor Bill Conti. O resultado foi um filme de sucesso nos exterior, mas nem tanto no Brasil. Um pouco longo demais para o gênero, sofre alguns obstáculos como custa um pouco para engatar e cai em clichês.
Macchio já com 22 anos, apesar de uma figura simpática era franzino e mediano como ator. Só aos poucos o público vai se acostumando com ele. Isso é compensado pelo acerto de chamar Morita para interpretar o Professor Miyagi (o ator foi recusado inicialmente por ser humorista, mas foi o melhor nos testes). O nome é inspirado no verdadeiro Chogun Miyagi, que viveu em Okinawa, onde criou o karate-jtusu chamado Roju Gyu (estilo duro e mole).
Há vários boatos sobre o filme. Um deles que Chuck Norris teria recusado o papel  de John Kreese, porque não concordava com seus métodos (ele desmente isso, mas que se tivesse sido realmente teria feito isso). Não é baseado em quadrinhos da DC, mas apenas usa o nome (e há agradecimentos a eles por cederem o nome). O juiz na luta final é um professor de Norris e foi consultor na lutas, Pat E. Johnson. A primeira cena a ser feita aquela famosa da praia. O plano sequência (sem cortes) acompanhando Daniel saindo do vestiário até chegar ao auditório foi rodada 35 vezes.
Macchio é até hoje dono do carro amarelo que ele limpa no filme, e que foi presente do produtor. A canção You´re the Best, de Joe Esposito, foi curiosamente composta antes para Rocky III. o que explica a frase "A história se repete". Mas foi rejeitada em favor de Eye of the Tiger, de Survivor, que tem também outra canção neste filme, The moment of Truth. Os lutadores rivais não ficaram famosos mas um deles tinha boa estirpe era Chad, filho de Steve McQueen. O lendário astro japonês Toshiro Mifune, dos filmes de Kurosawa fez o teste, mas foi recusado, segundo o diretor, porque lembrava demais os papéis a sério de Samurais que havia feito.
A técnica da cegonha mostrada no filme é fictícia e foi criada especialmente no roteiro! Numa revisão, o filme com seu tom enevoado, seu ritmo lento, seu visual antiquado, perde muito. O ritmo e o nível de  violência hoje em dia são outros. Mas as lições do Sensei Miyagi são inesquecíveis: quando captura uma mosca com os palitos (que Chan imita no novo filme), quando manda lustrar o carro e toda sua forma de ensinar. Eram tempos mais ingênuos e as falhas do filme ficam por conta da nostalgia. Morita, como se sabe, concorreu ao Globo de Ouro e Oscar de Melhor Coadjuvante (perdeu o Oscar para outro oriental Haing S. Ngor por Os Gritos do Silêncio).
Karate Kid 2 – A Hora da Verdade Continua
The Karate Kid Part II. 113 min.Cor.1986 . Estados Unidos. Columbia. Diretor: John G. Avildsen
Divulgação/Columbia Pictures

Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Nobu McCarthy, Tamlyn Tomita, Martin Kove, Danny Kamekona, Yuji Okumoto.
Sinopse: O estudante de caratê Daniel Larusso acompanha seu professor, Sr. Miyagi, até sua terra natal, a ilha de Okinawa, que vai rever seu pai e reencontrar uma namorada de infância. Mas também encontra um antigo inimigo, Sato, que envolve Daniel numa disputa.
Comentários: Pouca gente se lembra que o primeiro da série foi fracasso no Brasil e que ela só pegou a partir deste capítulo (além do fato da Rede Globo exibir o primeiro filme na estrria deste nos cinemas num domingo à tarde em acordo especial que a distribuidora fez com ele). É a mesma equipe do primeiro filme, que começa onde termina o anterior e com os mesmos problemas: é longo demais, excessivamente falado, tem produção irregular, locações mal resolvidas no Havaí e nenhum dos dois atores centrais é bom lutador. Ao menos não faz apologia da violência. O visual e os efeitos envelheceram mal. Mesmo a história é cheia de clichês com novas gangues, Daniel encontrando uma namorada no Japão e enfrentando um tufão. A canção tema Glory of Love foi indicada ao Oscar e fez bastante sucesso.
Karate Kid 3 – O Desafio Final
The Karate Kid Part III. 111 min.
Divulgação/Columbia Pictures
Cor. 1989. Estados Unidos. Columbia. Diretor: John G. Avildsen Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Martin Kove, Robyn Elaine Lovely, Thomas Ian Griffith, Sean Kanan.
Daniel Larusso é pressionado pelos estudantes da academia Cobra Kai para participar do campeonato de caratê, sendo vítima de ameaças e chantagens. Quando briga com Miyagi, consegue outro treinador que participa do elaborado plano de vingança.
Comentários: Neste final da trilogia retornam os personagens do original, mas Macchio continua franzino e inconvincente (apesar de não demonstrar seus 27 anos). É mais violento e grosseiro sem a filosofia que marcaram os anteriores, mas o visual é caprichado, assim como a direção de arte (a casa do vilão é a famosa mansão Azteca, construída pelo arquiteto Frank Lloyd Wright e usada em Blade Runner).
É estranha a ausência da atriz Elisabeth Shue (do primeiro e no segundo ficou ausente já que se passa em Okinawa, mas aqui foi substituída por outra atriz bem mais fraca). Na época ela estudava em Harvard e havia interrompido os estudos especialmente para atuar no primeiro filme.
Karatê Kid IV

Divulgação/Sony Pictures

Diretor: Christopher Cain. Elenco: Pat Morita, Hilary Swank, Nobu McCarthy, Tamlyn Tomita, Martin Kove, Danny Kamekona, Yuji Okumoto.
Poucos se lembram mas chegou a ter um subtítulo por aqui, a Nova Aventura. Nem todo mundo se lembra de que existiu ainda um quarto filme da série, completada a trilogia quando o produtor Jerry Weintraub percebeu que ainda havia ouro para tirar daquela fonte. E resolveu fazer a versão feminina do personagem.
O filme foi mais ou menos ignorado e hoje estaria esquecido não fosse o fato de terem escolhido uma jovem que depois virou estrela e ganhou dois Oscars, Hilary Swank. No original tentaram disfarçar o fato de ser mulher (porque tradicionalmente filme de ação  estrelado por mulher não se da bem de bilheteria) chamando-o de The Next Karate Kid (94) e chamando para a direção o pouco conhecido Christopher Cain (diretor americano nascido em 29 de outubro de 1943, mas em meados dos anos 70, decidiu ser ator, aparecendo em séries de TV e dirigindo seu primeiro filme em 1976, Elmer, uma história de um cachorro e um menino, estrelado por seu enteado Dean Cain, filho de sua mulher Sharon Thomas e que foi astro da série de  Lois e Clark: As Nova aventuras do Superman.
Fez sucesso de crítica com The Stone Boy, a comovente história de um menino que acidentalmente mata o irmão mais velho. Acertou também quando veio rodar na Amazônia, Selva Viva, a história de um órfão que é trazido para a civilização e sua amizade com um boto cor de rosa. Estranhamente depois de seu maior sucesso, Os Jovens Pistoleiros, se perdeu em fitinhas para a TV.
A história agora deste Karate Kid é sobre Julie é uma adolescente que perdeu os pais num acidente de carro e agora vive com a avó. Por iniciativa dela, a garota se aproxima de um amigo deles, o Professor Miyagi (que esta de retorno, mas curiosamente seu nome não é mencionado) com quem vai morar treinando karatê com a ajuda de três monges budistas e assim enfrentar um bando paramilitar de estudantes que está controlando o colégio dela, sob as ordens de um treinador neurótico.
A maior curiosidade é mesmo a presença da muito jovem Hilary Swank no papel principal desta fita. Ninguém poderia desconfiar que um dia ela ganharia o Oscar de Melhor Atriz do ano (por Meninos não Choram, em 2000), nem tampouco levaram muito a sério este quarto filme da série. Pat Morita continua dando credibilidade a seu papel, mas é praticamente uma refilmagem da série, só que agora com um personagem feminino. As lutas são muito estilizadas e o filme nada memorável. Nem mesmo por Hilary.
Onde estão eles?
Ralph Macchio

Reprodução

Nascido em 1961, Ralph já foi uma escolha curioso para o papel central da trilogia Karate Kid. Para começar ele é pequeno, franzino e já na época parecia muito mais novo do que era. Não é de estranhar portanto que quando finalmente aceitaram que cresceu perdeu sua carreira, já não havia personagens para seu tipo. De família italiana, começou em 1980 com a comédia Up the Academy, que se chamou aqui Rebeldes da Academia e foi das primeiras  pornô chanchadas americanas.
Sua grande chance foi quando Coppola o chamou para fazer o papel central   de Ponyboy em The Outsiders Vidas sem Rumo, 83, ao lado de um bando de jovens promissores de Tom Cruise a  Rob Lowe e Patrick Swayze.  Foi isso que o levou ao papel de Daniel Larusso no que foi chamado de A Hora da Verdade no Brasil.
Foram três  filmes e alguns outros fora: um deles se tornou Cult e parece que esta sendo lançado em breve em DVD no Brasil, que é Encruzilhada (Crossroads, de 86), a história do guitarrista que duelou com o diabo.
Fez  ainda a Escola da Desordem, e depois já tentando mudar um pouco Meu Primo Vinny, Os Loucos Casais da California, Nu em Nova York, Torturado pelo passado. Depois foi esquecido e seus últimos créditos são em séries de TV (Ugly Betty, Law & Order, não chega nem mesmo a fazer participação especial no novo Karate Kid). É casado  com Phyllis Fierro desde 87 e tem dois filhos. Seu nome se diz Ma-cchio, como em italiano mesmo.
Pat Morita -  (1932-2005)
Reprodução
Para mim, a série existe pelo acerto da escolha do professor, o papel da vida de Morita (sua carreira foi muito prejudicada por ser alcoólatra, o que o impediu de ser contratado com mais frequência). O que não sucede com Jackie Chan que não tem maior brilho.
O curioso é que ele começou como stand-up comedian, usando o apelido de Hip Nip e fazendo papéis de coadjuvante como em Positivamente Millie, nas séries Mash e Sanford and Son. Sua chance veio quando fez o dono de restaurante chinês na série Happy Days, durante alguns anos. Isso o tornou astro de TV (O´Hara) e como dublador de animação.
Seu último filme foi Royal Kill (09) e foi casado três vezes. Macchio declamou em seu enterro, o discurso Para sempre meu Sansei! Foi indicado ao Oscar e Globo de Ouro de Melhor Coadjuvante pelo primeiro Karate Kid, ao Emmy pelo telefilme Amos e ao framboesa pela segundo Karate Kid. Mas tem seu lugar garantido no panteon dos grandes coadjuvantes do cinema.

Fonte: R7(Rubens Ewald Filho)

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